quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Cortes salariais vão ser aplicados já em Janeiro

Cortes salariais vão ser aplicados já em Janeiro

O que vão fazer as restantes empresas públicas?

19.01.2011 - 14:30 Por PÚBLICO

Muitas vão limitar-se a aplicar a tabela da função pública, com cortes que variam entre 3,5 e dez por cento.

Estradas de PortugalVai aplicar as regras de redução de salários impostas à função pública, já a partir de Janeiro, isentando os trabalhadores que ganham menos de 1500 euros ilíquidos e cortando dez por cento nas remunerações acima de 4165 euros. Segundo a Estradas de Portugal, "todos os trabalhadores da empresa foram individualmente informados do impacto da medida no montante da remuneração total ilíquida no mês de Janeiro de 2011".

RTP
Também vai aplicar as orientações do Governo relativamente às reduções na função pública, a partir de Janeiro, conforme comunicou, em circular interna, aos trabalhadores. Será ainda aplicada uma redução de 20 por cento nas despesas com órgãos de administração, chefias e estruturas de direcção. O subsídio de alimentação, que estava entre 7,25 e 11 euros, passa, para os contratos assinados a partir deste ano, a ser de 4,27 euros - igual à restante função pública.

ANA
A gestora aeroportuária não se pronunciou sobre os cortes, argumentando que os quer comunicar internamente primeiro. No entanto, representantes dos trabalhadores avançaram que será seguida a tabela da função pública, já este mês.

Metro do Porto
Os cerca de cem funcionários da Metro do Porto também verão já este mês a sua tabela salarial reduzida. A empresa informou, ainda antes do final do ano, da intenção de aplicar "os cortes salariais exactamente de acordo com a tabela oficial [função pública] e com as isenções previstas na mesma".

Refer
A Rede Ferroviária Nacional e a Rave, responsável pelo projecto de alta velocidade, disseram à Lusa ter apresentado propostas que "estão em apreciação no Governo". Mas o PÚBLICO sabe que, tanto nestas empresas, como na CP, os trabalhadores já foram informados de que sofrerão os cortes salariais já este mês.

TAP
A transportadora aérea disse apenas que "está a trabalhar na implementação das orientações recebidas do seu accionista" e que estas "serão implementadas tão cedo quanto estejam concretizadas".
STCP
O Serviço de Transportes Colectivos do Porto (STCP) pretende "dar cumprimento rigoroso ao estabelecido no Orçamento do Estado" e avançar com os cortes salariais impostos pelo Governo já este mês de Janeiro. A.M., C.C., L.P. e R.A.C.

 

Pobre do povo que vive alienado...

O seguinte texto não é da minha autoria... aliás desconheço o autor! No entanto estou 100% de Acordo


Chega! Começo a não aguentar tanta náusea.

Na mesma semana em que foi assassinado um cronista social, faleceu um capitão de Abril.
Ao primeiro, a comunicação social, dedica horas.
Ao segundo dedicou minutos.
Para o primeiro são ouvidas dezenas de personalidades.
Do segundo nada se diz.
Do primeiro até temos de saber por onde vão ser distribuídas as cinzas.
Do segundo soube-se que o corpo esteve algures em câmara ardente.
Do primeiro traça-se um perfil de grande lutador pelas liberdades.
Do segundo pouco mais se diz que era um oficial na reserva.

A forma como a comunicação social tem tratado o homicídio de um mero cronista social tem sido, no mínimo, abusiva. Porque será ??
São jornalistas, astrólogos, parapsicólogos e uma verdadeira procissão de personagens de um jet set rasca e, no meio, usa-se e abusa-se das imagens onde se vê o cronista a entregar um ramo de flores a Maria Barroso, imagens que já vi serem repetidas quase uma dúzia de vezes.

A forma trágica como terminou aquilo que o cronista descreveu aos amigos que iria ser uma lua de mel é apresentada por astrólogas, parapsicólogos e outros especialistas deste ramo como uma bela história de amor, um misto de um episódio do Morangos com Açúcar com o Romeu e Julieta.
Chegamos ao ridículo de ver as astrólogas e parapsicólogos a tentarem demonstrar a culpa do jovem homicida exibindo e-mails e insinuando que este teria conquistado com palavras o distraído apaixonado, dando a entender que, como noutros tempos, o enganou.

E anda este país, com problemas gravíssimos, distraído com um episódio sórdido da lumpen-burguesia deste nosso jet set miserável, como uma pequena seita de gente que se auto-elege como bonita, vive de pequenos luxos obtidos à custa de papalvos, um meio onde se promovem personagens patéticas e decadentes a grandes figuras nacionais, onde autarcas financiam discotecas de astrólogas ou ajeitam as contas de idiotas convidando-os para reis do Carnaval.

Todo este espectáculo mórbido que só serviu para os portugueses saberem um pouco mais sobre como se fazem e desfazem as paixões conseguidas com trocas de favores começa a provocar-me náusea.
Já me custa assistir a um telejornal ou abrir as páginas dos jornais.
Enoja-me que estes jornalistas me queiram fazer pensar que os grandes problemas do país é como acabam as paixões dos nossos socialites, os sítios que querem poluir com as suas cinzas, ou os sms que trocaram com os seus engates.

Lá que insistam em dizer que crónica social é saber com quem namora uma qualquer Lili decrépita e decadente é uma coisa, agora que a sociedade portuguesa é o pequeno mundo dessa pobre gente é outra coisa.
O país tem muito mais com que se preocupar do que com os engates de modelos, com as trocas de sms, com paixões à primeira vista entre jornalistas de 65 anos e modelos de 20.
Chega! Começo a sentir náuseas...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Opus Dei /Maçonaria (a história do BCP).

Em países onde o capitalismo, as leis da concorrência e a seriedade do negócio bancário são levados a sério, a inacreditável história do BCP já teria levado a prisões e a um escândalo público de todo o tamanho. Em Portugal, como tudo vai acabar sem responsáveis e sem responsabilidades,  convém recordar os principais momentos deste "case study", para que ao menos a falta de vergonha não passe impune.

1. Até ao 25 de Abril, o negócio bancário em Portugal obedecia a regras simples: Cada grande família, intimamente ligada ao regime, tinha o seu banco. Os bancos tinham um só dono ou uma só família como dono e sustentavam os demais negócios do respectivo grupo.
Com o 25 de Abril e a nacionalização sumária de toda a banca, entrámos num período 'revolucionário' em que "a banca ao serviço do povo" se traduzia, aos olhos do povo, por uns camaradas mal vestidos e mal encarados que nos atendiam aos balcões como se nos estivessem a fazer um grande favor.
Jardim Gonçalves veio revolucionar isso, com a criação do BCP e, mais tarde, da Nova Rede, onde as pessoas passaram a ser tratadas como clientes e recebidas por profissionais do ofício.
Mas, mais: ele conseguiu criar um banco através de um MBO informal que, na prática, assentava na ideia de valorizar a competência sobre o capital. O BCP reuniu uma série de accionistas fundadores, mas quem de facto mandava eram os administradores - que não tinham capital, mas tinham "know-how".
Todos os fundadores aceitaram o contrato proposto pelo "engenheiro" - à excepção de Américo Amorim, que tratou de sair, com grandes lucros, assim que achou que os gestores não respeitavam o estatuto a que se achava com direito (e dinheiro).
2. Com essa imagem, aliás merecida, de profissionalismo e competência, o BCP foi crescendo, crescendo, até se tornar o maior banco privado português, apenas atrás do único banco público, a Caixa Geral de Depósitos.
E, de cada vez que crescia, era necessário um aumento de capital.
E, em cada aumento de capital, era necessário evitar que algum accionista individual ganhasse tanta dimensão que pudesse passar a interferir na gestão do banco.
Para tal, o BCP começou a fazer coisas pouco recomendáveis: aos pequenos depositantes, que lhe tinham confiado as suas poupanças para gestão, o BCP tratava de lhes comprar, obviamente sem os consultar, acções do próprio banco nos aumentos de capital, deixando-os depois desamparados nas perdas da bolsa;
Aos grandes depositantes e amigos dos gestores, abria-lhes créditos de milhões em "off-shores" para comprarem acções do banco, cobrindo-lhes, em caso de necessidade, os prejuízos do investimento.
Desta forma exemplar, o banco financiou o seu crescimento com o pêlo do próprio cão, aliás, com o dinheiro dos depositantes - e subtraiu ao Estado uma fortuna em lucros não declarados para impostos.
Ano após ano, também o próprio BCP declarava lucros astronómicos, pelos quais pagava menos de impostos do que os porteiros do banco pagavam de IRS em percentagem. E, enquanto isso, aqueles que lhe tinham confiado as suas pequenas ou médias poupanças viam-nas sistematicamente estagnadas ou até diminuídas e, de seis em seis meses, recebiam uma carta-circular do engenheiro a explicar que os mercados estavam muito mal.
3. Depois, e seguindo a velha profecia marxista, o BCP quis crescer ainda mais e engolir o BPI.
Não conseguiu, mas, no processo, o engenheiro trucidou o sucessor que ele próprio havia escolhido, mostrando que a tímida "renovação" anunciada não passava de uma farsa.
Descobriu-se ainda uma outra coisa extraordinária e que se diria impossível: que o BCP e o BPI tinham participações cruzadas, ao ponto de hoje o BPI deter 8% do capital do BCP e, como maior accionista individual, ter-se tornado determinante no processo de escolha da nova administração... do concorrente! Como se fosse a coisa mais natural do mundo, o presidente do BPI dá uma conferência de imprensa a explicar quem deve integrar a nova administração do banco que o quis opar e com o qual é suposto concorrer no mercado, todos os dias...
4. Instalada entretanto a guerra interna, entra em cena o notável comendador Berardo, ele é só o homem que mais riqueza acumula e menos produz no país (protegido pelo 1º Ministro (a Sócretina), que lhe deu um museu do Estado para armazenar a colecção de arte privada. Mas, verdade se diga, as brasas espalhadas por Berardo tiveram o mérito de revelar segredos ocultos e inconfessáveis daquela casa.
E assim ficámos a saber que o filho do engenheiro fora financiado em milhões para um negócio de vão de escada, e perdoado em milhões quando o negócio inevitavelmente foi por água abaixo.
E que havia também amigos do engenheiro e da administração, gente que se prestara ao esquema das "off-shores", que igualmente viam os seus créditos malparados serem perdoados e esquecidos por acto de favor pessoal.
5. E foi quando, lá do fundo do sono dos justos onde dormia tranquilo, acorda inesperadamente o governador do Banco de Portugal e resolve dizer que já bastava: aquela gente não podia continuar a dirigir o banco, sob pena de acontecer alguma coisa de mais grave - como, por exemplo, a própria falência, a prazo.
6. Reúnem-se, então, as seguintes personalidades de eleição: o comendador Berardo, o presidente de uma empresa pública com participação no BCP e ele próprio ex-ministro de um governo PSD e da confiança pessoal de Sócrates, mais, ao que consta, alguém em representação do doutor "honoris causa" Stanley Ho - a quem tantos socialistas tanto devem e vice-versa. E, entre todos, congeminam um
"take over" sobre a administração do BCP, com o "agréement" do dr. Fernando Ulrich, do BPI.
E olhando para o panorama perturbante a que se tinha chegado, a juntar ao súbito despertar do dr. Vítor Constâncio, acharam todos avisado entregar o BCP ao PS.
Para que não restassem dúvidas das suas boas intenções, até concordaram em que a vice-presidência fosse entregue ao sr. Armando Vara (que também usa 'dr.') - fabuloso expoente político e bancário que o país inteiro conhece e respeita.
7. E eis como um banco, que era tão independente, que fazia tremer os governos, desagua nos braços cândidos de um partido político - e logo o do Governo. E eis como um banco, que era tão cristão, tão "opus dei", tão boas famílias, acaba na esfera dessa curiosa seita do avental, a que chamam maçonaria.
8. E, revelada a trama em todo o seu esplendor, que faz o líder da oposição? Pede em troca, para o seu partido, a Caixa Geral de Depósitos, o banco público.
Pede e vai receber, porque há 'matérias de regime' que mesmo um governo que tenha maioria absoluta no parlamento não se atreve a pôr em causa. Um governo inteligente, em Portugal, sabe que nunca pode abocanhar o bolo todo.
Sob pena de os escândalos começarem a rolar na praça pública, não pode haver durante muito tempo um pequeno exército de desempregados da Grande Família
do Bloco Central.

Se alguém me tivesse contado esta história, eu não teria acreditado.

Mas vemos, ouvimos e lemos. E foi tal e qual.

Miguel Sousa Tavares.

Continuamos a empurrar os problemas com a barriga...

Públic 2011-01-14 José Manuel Fernandes
Paul Krugman tem razão: a taxa de juro do leilão da dívida foi "pouco menos que ruinosa"

Primeiro andamento: o Beco

Esta semana um amigo meu interrogava-se não sobre se deveria aconselhar os filhos a procurarem um futuro fora de Portugal - isso já estava a acontecer -, mas sobre se algum dia, mais tarde, eles teriam um futuro em Portugal. No mesmo dia, uma jovem aluna, ao ler um título do Diário de Notícias que indicava durarem os encargos das PPP mais 72 anos, confessava que já tinha pensado procurar um casamento de conveniência nos Estados Unidos para se poder naturalizar imediatamente. Não soube que responder-lhes.

Foi por isso quase com um sentimento de revolta que ouvi, na quarta-feira, as reacções entusiasmadas ao "sucesso" do leilão de dívida pública à taxa de 6,716 por cento (um preço "muito bom", delirou mesmo o primeiro-ministro). Paul Krugman chamou-lhe, porém, "leilão pírrico" e previu que com "mais alguns sucessos destes a periferia europeia será destruída". É fácil explicar porquê: com a inflação limitada a dois por cento pelo Banco Central Europeu, Portugal precisaria de crescer a quase cinco por cento ao ano para conseguir, sem alienar património, começar a amortizar as suas dívidas. Isto quando, nos últimos dez anos, praticamente não crescemos e, em 2011, o Banco de Portugal prevê mesmo que encolhamos 1,3 por cento. Ou, como se escrevia na The Economist, "a taxa [de 6,716 por cento] é insustentavelmente alta para um país com tanta dívida pública. Se Portugal quer continuar solvente, o custo dos seus empréstimos tem de descer substancialmente".

Não deviam, pois, estalar rolhas de champanhe quando, ao contrairmos dívida a esta taxa de juro, estamos a cravar mais um prego no nosso caixão. Isso só aconteceu porque, em Portugal, e também na Europa, domina uma visão de curto prazo. Os líderes preocupam-se apenas com o mês seguinte e não, como os meus interlocutores, com as próximas décadas.

Sejamos, pois, claros: Portugal encontra-se numa situação semelhante à da generalidade dos países do Sul da Europa, que, esta semana, foi muito bem retratada por Wolfgang Münchau, colunista de assuntos europeus do Financial Times, e por Ambrose Evans-Pritchard, editor de economia internacional do Telegraph de Londres: estes países têm, ao mesmo tempo, de conseguir recuperar a competitividade perdida das suas economias e de controlar as suas dívidas, mas realisticamente só conseguirão, nas actuais condições, enfrentar um desses problemas, nunca os dois ao mesmo tempo. Só através de uma desvalorização (impossível no quadro da união monetária) ou do reescalonamento da dívida (um tabu por enquanto) poderão países como Portugal sair do beco onde se meteram.

Segundo andamento: o Primeiro Dilema

Há uma pesada sensação de déjà vu na coreografia dos líderes europeus e portugueses a propósito de um eventual recurso de Portugal ao fundo de emergência europeu (e ao FMI). Passo a passo, parece estarmos a seguir as pisadas da Grécia e da Irlanda. Ambrose Evans-Pritchard notou até uma particular coincidência: a precipitação do processo de ajuda ocorreu, na Irlanda, quando o governador do Banco Central entrou em dissonância com o Governo de Dublin; em Portugal, Carlos Costa ainda não divergiu de Teixeira dos Santos, mas uma das suas vice-governadoras, Teodora Cardoso, já o fez. E o que é que ela disse? Que tudo poderá ser "mais fácil, se tivermos um apoio externo, desde logo porque isso permite que o ajustamento não seja tão abrupto".

Em editorial, o Financial Times defende uma posição semelhante: "Ao terem recusado recorrer aos fundos europeus até não terem outra alternativa, Atenas e Dublin tornaram o processo de resgate mais confuso e penoso do que o necessário. Lisboa está a repetir o erro, ao encarar como uma desgraça nacional pedir ajuda".

Ambas estas abordagens partem do princípio do que será melhor para Portugal, e ambas convergem num ponto: quando mais depressa chegar a ajuda, menos dolorosa será a terapia. E até nem é difícil perceber porquê: os juros que teríamos de pagar pelos empréstimos se recorrêssemos depressa à ajuda europeia seriam sempre menores do que aqueles que pagámos quarta-feira no leilão da dívida. Só aí estaríamos a ganhar, e muito.

Por outro lado, apesar de toda a retórica sobre "estarmos a fazer o trabalho de casa", a verdade é que ainda se arrasta os pés. Basta pensar no famoso pacote para a competitividade levado por José Sócrates a Bruxelas, e que não passava de uma mão cheia de nada e de outra de coisa nenhuma. Um empurrãozinho de fora para tomarmos juízo e darmos corda aos sapatos seria, de novo, bem-vindo.

Intermezzo: os Desvairados

Entretanto prossegue nas estradas do país uma campanha eleitoral onde desvairadamente se grita que as nossas aflições derivam "de uma acção especulativa que tem como objectivo forçar a entrada do FMI em Portugal", algo que "vem de fora mas tem cumplicidades cá dentro", como disse Alegre. Claro que esta gritaria contra "os mercados" é completamente inútil, pois estes não se impressionam por serem considerados "bodes expiatórios", como notou António Vitorino num jantar no Círculo Eça de Queiroz.

Claro que a campanha de Alegre não chega aos delírios retóricos do seu apoiante Boaventura Sousa Santos, para quem os mercados "são um bando de criminosos", "uns mafiosos" que cometem "crimes contra a humanidade". Mesmo assim, falha o ponto essencial: Portugal depende da boa vontade dos credores porque se deixou endividar a um ponto que não vive sem empréstimos constantes. Pior: num país que tem de importar 75 por cento dos cereais que consome, imaginar que se pode romper com os mercados é pura estultícia e, em campanha eleitoral, só serve para alimentar a demagogia.

É que, como escrevia a revista The Economist, "para todos aqueles que se deram ao trabalho de observar, tem sido evidente de há bastante tempo que o país estava a viver acima dos seus meios. Mais tarde ou mais cedo era inevitável que acabasse na bancarrota, e foi à bancarrota que Portugal agora chegou". Na verdade, tecnicamente, ainda não chegámos à bancarrota, mas este artigo da Economist também não é desta semana, foi publicado a 6 de Fevereiro de 1892. Alegre pode conhecer Os Lusíadas de cor, mas se conhecesse melhor a nossa história económica talvez soubesse que não nos convinha repetir esse colapso financeiro de que levámos décadas a sair e que conduziu, em última análise, a Salazar.

Terceiro andamento: o Segundo Dilema

Se nos abstrairmos dos cálculos políticos e partidários, assim como dos jogos de orgulho pessoal, um eventual pedido de ajuda de Portugal também deve ser analisado numa perspectiva europeia. É que, como se escrevia no Wall Street Journal, um eventual resgate de Portugal - cada vez mais provável, mesmo que no leilão aparecessem compradores, como apareceram - "não impediria que os problemas europeus com as dívidas soberanas continuassem a alastrar".

O raciocínio dos editorialistas do WSJ era semelhante ao que Vitorino expusera no jantar queirosiano: ao pensar que podem resolver os problemas da dívida soberana separando mais uma fatia como quem corta um salame, a Europa não está a perceber que tem é de tratar de todo o salame, sob risco de não conter a infecção. É por isso que ele se opõe ao resgate de Portugal.

Falta, contudo, considerar as alternativas. Isto é, pensar no que poderá fazer a Europa para além de, por exemplo, aumentar o tamanho do fundo de emergência ou flexibilizar as suas regras. Wolfgang Münchau fazia no FT algumas sugestões e Vitorino também entreabriu algumas portas. Münchau reconhecia, no entanto, que as suas propostas eram "politicamente inconcretizáveis", o que se compreende se pensarmos que elas passariam sempre, como disse Vitorino, por "novas transferências de soberania sem mexer nos tratados", logo sem ter de passar pelo crivo dos eleitores. Para Portugal o cenário poderá ainda ser pior, ocorrendo aquilo a que chamou "transferências de soberania assimétricas". Já para a Europa representaria a criação de uma união política nas costas dos cidadãos, um movimento contra o qual alertou, também esta semana, o influente economista alemão Otmar Issing, um dos "pais" da moeda única.

Daí que, desculpem a minha frontalidade, tenha de colocar um segundo dilema associado à vinda ou não do FMI: será melhor uma transferência temporária de soberania até ultrapassarmos esta crise ou uma transferência permanente de soberania para uma Europa que se tornaria institucionalmente desigual?

Não sei a resposta. Só sei, e não esqueço, que estamos neste buraco por causa de uma gestão política irresponsável. Não foram "os mercados" que nos aprisionaram, fomos nós que nos colocámos na posição de depender da sua boa vontade depois de anos e anos de farra orçamental, pagamentos a clientelas e gastos lunáticos. Jornalista, www.twitter.com/jmf1957

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Cortes das despesas? De quem?

Todos os ''governantes'' [a saber: os que se governam...]  de Portugal falam em cortes das despesas, mas não dizem quais, e aumentos de impostos, a pagar pela malta

Não ouvi foi nenhum governante falar em:

. Reduzir as mordomias (gabinetes, secretárias, adjuntos, assessores, suportes burocráticos respectivos, carros, motoristas, etc.) dos três Presidentes da República retirados.

. Redução dos deputados da Assembleia da República e seus gabinetes, profissionalizando-os como nos países a sério. Reforma das mordomias na Assembleia da República, como almoços opíparos, com digestivos e outras libações, tudo à custa do pagode

. Acabar com os milhares de Institutos Públicos e Fundações Públicas que não servem para nada e têm funcionários e administradores com 2º ou 3º emprego.

. Acabar com as empresas Municipais, com Administradores a auferir milhares de euros mês e que não servem para nada, antes acumulam funções nos municípios, para aumentarem o bolo salarial respectivo. Redução drástica das Câmaras Municipais e Assembleias Municipais, numa reconversão mais feroz que a da Reforma  do Mouzinho da Silveira, em 1821, etc.

. Redução drástica das Juntas de Freguesia.

. Acabar com o pagamento de 200 € por presença de cada pessoa nas reuniões das Câmaras e 75 € nas Juntas de Freguesia.

.  Acabar com o Financiamento aos Partidos. Que devem viver da quotização dos seus associados e da imaginação que aos outros exigem para conseguirem verbas para as suas actividades

. Acabar com a distribuição de carros a Presidentes, Assessores, etc, das Câmaras, Juntas, etc., que se deslocam em digressões particulares pelo País.

. Acabar com os motoristas particulares 20 h/dia, com o agravamento das horas extraordinárias... para servir suas excelências, filhos e família. Acabar com a renovação sistemática de frotas de carros do Estado e entes públicos menores, mas maiores nos dispêndios públicos.

. Colocar chapas de identificação em todos os carros do Estado. Não permitir de modo algum que carros oficiais façam serviço particular tal como levar e trazer familiares e filhos às escolas, ir ao mercado a compras, etc. Acabar com o vaivém semanal dos deputados dos Açores e Madeira e respectivas estadias em Lisboa em hotéis de cinco estrelas pagos pelos contribuintes que vivem em tugúrios inabitáveis...

. Acabar com os "subsídios" de habitação e deslocação a deputados eleitos por círculos fora de Lisboa... que sempre residiram na Capital e nunca tiveram qualquer habitação nos círculos eleitorais a que concorreram!

. Controlar os altos quadros "colocados" na Função Pública (pagos por nós...) que quase nunca estão no local de trabalho. Então em Lisboa é o regabofe total: HÁ QUADROS QUE, EM VEZ DE ESTAREM NO SERVIÇO PÚBLICO, PASSAM O TEMPO NOS SEUS ESCRITÓRIOS DE ADVOGADOS A CUIDAR DOS SEUS INTERESSES, QUE NÃO OS DA COISA PÚBLICA...

. Acabar com as administrações numerosíssimas de hospitais públicos que servem para garantir tachos aos apaniguados do poder - há hospitais de província com mais administradores que pessoal administrativo. Só o de PENAFIEL TEM SETE ADMINISTRADORES PRINCEPESCAMENTE PAGOS... pertencentes às oligarquias locais do partido no poder...

. Acabar com os milhares de pareceres jurídicos e outros, caríssimos, pagos sempre aos mesmos escritórios que têm canais de comunicação fáceis com o Governo no âmbito de um tráfico de influências que há que criminalizar, autuar, julgar e condenar.

. Acabar com as várias reformas, acumuladas,   por pessoa, de entre o pessoal do Estado e de entidades privadas, que passaram fugazmente pelo Estado.

. Pedir o pagamento dos milhões dos empréstimos dos contribuintes ao BPN e BPP, com os juros devidos!

. Perseguir os milhões desviados por Rendeiros, Loureiros e quejandos, onde quer que estejam e recuperar essas quantias para os cofres do Estado.

. E por aí fora... Recuperaremos depressa a nossa posição, sobretudo a credibilidade tão abalada pela corrupção que grassa e pelo desvario dos dinheiros do Estado.

.  Quem pode explicar porque é que o Presidente da Assembleia da República tem, ao seu dispor, dois automóveis de serviço? Deve ser um para a "pasta" e outro para a "lancheira"!!!

Caso BPN: O que esconde Cavaco?

O HOMEM E A CIRCUNSTÂNCIA

O diploma que não existia
 
22-12-2010

Por Pedro Jorge Castro

Cinco dias depois de se ter refugiado em Paris, em Julho de 1964, Manuel Alegre escreveu ao cunhado, António Portugal, marido da irmã, e fez-lhe um pedido: "Preciso urgentemente dos meus documentos universitários, inclusive as cadeiras feitas e respectivas classificações. Junto do meu padrinho tenho possibilidades de completar o meu curso. Seria óptimo se 'arranjassem' as coisas de modo a que o certificado dissesse ter eu o 3.º ano completo."

A seguir, juntou um alerta contra a PIDE: "Será conveniente que esses documentos venham por mão própria, para esses filhos da puta não os roubarem no correio."

Manuel Alegre não concluiu o 3.º ano de Direito, daí o uso de aspas no verbo "arranjassem". A carta, manuscrita, foi interceptada pela PIDE e está arquivada na Torre do Tombo, tal como uma transcrição dactilografada pela polícia política.

A ficha curricular de Manuel Alegre, guardada no Arquivo do Departamento Académico da Universidade de Coimbra, indica que o poeta concluiu o 1.º e o 2.º ano de Direito, mas quanto ao 3.º ano apenas regista aproveitamento na disciplina semestral de Direito Fiscal. Esteve inscrito também em Economia Política, a cujo exame faltou, e nas cadeiras anuais de Administração e Direito Colonial, Finanças e Direito Civil - mas não as concluiu.

Confrontado com esta questão, há um mês, numa entrevista dada à SÁBADO sobre outros aspectos da sua resistência ao salazarismo, Manuel Alegre respondeu que não se lembrava de ter feito um pedido ao cunhado sobre este assunto. Questionado sobre se, tendo em conta que não continuou o curso por ter resistido à ditadura, acharia natural pedir para lhe passarem o diploma como se tivesse o 3.º ano completo, Manuel Alegre respondeu: "Não, de maneira nenhuma. Nem tinha sentido, nem eles passavam. Então passavam a uma pessoa que é exilada? Não tem sentido nenhum. Não me lembro nada disso. Nem tem sentido."

Nessa entrevista, o candidato mostrou--se ainda convencido de que tinha concluído o 3.º ano do curso: "A memória que eu tenho é que tenho o 3.º ano de Direito e que estava a fazer cadeiras do 4.º ano." Esta semana, confrontado com a informação oficial da Universidade de
Coimbra (segundo a qual apenas completou uma cadeira do 3.º ano), Duarte Cordeiro, director de campanha do candidato apoiado pelo PS e pelo Bloco de Esquerda, disse que Manuel Alegre mantinha a resposta dada há um mês.

O candidato às presidenciais de Janeiro entrou na Faculdade de Direito em 6 de Novembro de 1956, e a sua última avaliação tem data de 19 de Março de 1964. Estes sete anos e meio foram marcados por uma intensa actividade contra a ditadura, nas lutas estudantis, durante o serviço
militar em Mafra e nos Açores, e na guerra colonial em Angola, onde esteve preso cinco meses. Quando voltou a Coimbra sentiu-se vigiado em permanência: "Os gajos da PIDE não me largavam. (...) Percebi que estava arrumado e que, mais dia menos dia, ou ia para a cadeia ou
teria de ir embora do país", conta no livro Uma Longa Viagem com Manuel Alegre, escrito por João Céu e Silva. Na mesma página, diz que não completou o curso e sublinha: "Nem o quis fazer por via administrativa."